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Lívia e Francisco passaram a gostar ainda mais daquela reciprocidade que os envolvia. O segredo passava a ser ilegítimo, nada mais estaria a justificá-lo. Afinal de contas, fossem pensar bem a respeito, não há imoralidade de que se possa acometer os desvios do coração. Mesmo ele sendo o professor e ela a aluna. Tão bom passear de mãos dadas, eles também tinham esse direito. Lívia até nem lembrava mais da sensação. Não pelo tempo que fazia da última vez que havia dado a mão assim, publicamente, mas porque, para o bem da verdade, jamais tinha dado o devido o valor pra isso. Assim que, sem tornar necessária qualquer palavra, o universo passou a testemunhar abraços mais longos e a eventualidade dos dedos estarem por entre si entralaçados. Não havia qualquer excentricidade. Era mínima a publicidade. Nem pensaram tanto a respeito e logo estavam namorados.
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Engraçado. "Namorados". Com o rótulo, simples assim. Rígido e determinado assim.
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Lá pelas tantas, numa daquelas conversas na cama, se debruçaram a enfrentar o tema. (Sabia Francisco que a cama não era o melhor lugar para tais conversas, mas tudo bem, ele entendia necessário relativizar alguns dogmas particulares). Lívia era menina, seus pouco mais de vinte anos permitiam ver a vida com óculos distintos daqueles que usava Francisco. Ele era jovem na cabeça, na estética e no espírito, não necessariamente nessa ordem. Ainda assim, a velocidade da modernidade líquida poderia ser, no caso, implacável. Aliás, foi o que ele concluiu, em solitário, ao final daquela despretensiosa conversa. Por óbvio não diria isso a Lívia. Francisco deixaria que ela discordasse, ou ainda acordasse, sem perceber aquela sua constatação. A resposta de Lívia não viria através de palavras, ou apenas através de palavras, bem imaginou. É que as palavras comunicam, mas por vezes não aproximam - ao menos quando vêm sozinhas - a indispensável e fidedigna verdade.
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Certo dia, no entanto, a verdade, ou sua irmã gêmea, daria indícios de aparecer.
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Naquele final da manhã de quinta-feira, Francisco ficou estático por breves segundos. O expressivo olhar cuidava, no entanto, cada movimento dela. Aquilo foi num daqueles desacertos liminares. Só que esse significava sensivelmente mais. A propósito, importa dizer, nada houvera de ser, até ali, tão grave. Lívia insistia em desviar o olhar, mesmo que isso depusesse contra sua manifesta vontade. Francisco tocou-a de leve na mão. Aproximou-se em cauteloso vagar do seu ouvido. Foi assim que, com pausadas palavras, entendeu de suavemente pronunciar:
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"Já lhe dei meu corpo. Minha alegria. Já estanquei meu sangue. Quando fervia. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota que falta. Pro desfecho da festa. Por favor...Deixe em paz meu coração. Que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d'água".
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Lívia mirou Francisco nos olhos. Finalmente, o tímido sorriso apareceu. Naquele repentino desligamento do pensar, ele encheu-se de esperança. Ainda assim, Lívia decidiu não beijá-lo. Num pueril e instintivo devaneio, como se estivesse convicta da sua mais eloquente razão, resolveu ostentar dissimulada expressão facial para, logo em seguida, sentenciar: "Não temos mais nada o que conversar".
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Virou as costas e foi embora. Tudo como se estivesse no enredo de uma autêntica novela.
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"Arriscado", pensou Francisco. "Arriscado", pensou o rapaz que bebia, solitário, uma cerveja ali ao lado. "Arriscado", pensou a vizinha que estava a fechar a janela da casa. "Arriscado", pensou o cachorro que fingia dormir na calçada. "Arriscado", pensaria até a melhor amiga de Lívia, muito embora não tivesse coragem de dizer isso pra ela. "Arriscado?" pensou e continua a pensar Lívia. Até hoje.
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